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Palavra-outra e palavra-minha: algumas considerações

Thayrine Vilas Boas

thayrine.boas@gmail.com


Nas zonas limítrofes entre as palavras dos sujeitos, estabelecemos enunciados (VOLÓCHINOV, 2013; 2017) que se cruzam com os de outrem. Nesse encontro, nem sempre (minimamente) tranquilo, formam-se as fronteiras em que construímos e reconstruímos a nossa visão sociocultural de mundo e os nossos próprios horizontes singulares de experiência. Desse modo, podemos desde logo entender que a palavra-minha imanta a palavra-outra tanto quanto por ela é dialogicamente imantada (BAKHTIN, 2010), tecendo a complexa rede enunciativa na qual estão implicadas questões culturais, sociais e históricas que, por vezes, avultam a tensão dialógica em função das idiossincrasias mais variadas.


É, pois, no contexto da conflituosa relação discursiva entre a palavra-minha e a palavra-outra, que se tornam sempre outras no curso sinuoso das interações dialógicas, que temos a possibilidade de problematizar a construção de sentidos nos enunciados dos sujeitos envolvidos em um dado evento (BAKHTIN, 1993) de comunicação discursiva (VOLÓCHINOV, 2017), seja com a finalidade de entender as bifurcações desses percursos, seja com o objetivo de compreender em que medida os elementos da língua, como os verbos, configuram os posicionamentos dos sujeitos em seus enunciados e marcam os limites e as transformações envolvidas nas relações entre os seus dizeres e os seus atos em geral.


A palavra-minha, que se constitui incontornavelmente como um enunciado ou que o compõe como uma unidade dentro de outra unidade, aponta para uma rede discursiva que expressa o contato com a realidade imediata vivida pelo sujeito para além da palavra mesma, isto é, para além daquilo que é unicamente linguístico no enunciado. Isso se torna claro quando à palavra se atribui um sentido a partir unicamente dos contextos que lhe conferem concretude discursiva. É nessa situação de comunicação (VOLÓCHINOV, 2017) que a carga emocional-volitiva (BAKHTIN, 1993) do ato de enunciar em relação de alteridade com outros entrelaça a tomada de consciência sobre determinado evento, o que toca a cada um de forma distinta, de acordo com formas de pensar, de sentir e de reagir aos fenômenos. Isso constitui o núcleo de sentido da palavra. Não se trata de uma relação individualizada, mas, sim, de uma tomada de consciência em que as palavras estão envolvidas e que requer uma atitude responsável (BAKHTIN, 1993) do sujeito para consigo e para com o outro, na medida em que há um reconhecimento decorrente da experiência, o que implica a responsabilidade tanto no dizer, quanto no fazer.


Nessa perspectiva, para Bakhtin (2010), a cadeia enunciativa revela-se única na experiência de cada sujeito, cujas palavras expressam o envolvimento que só pode acontecer na dimensão do sujeito imerso no evento e na história. Por um lado, considerando o tom emocional-volitivo presente no enunciado, reitera-se a construção de sentido no contexto imediato do evento, pois é nele que constam os elementos que conotam a emoção na construção de sentido dos enunciados (palavras), tratando-se da inscrição do ser correlacionado à circunstância. Por outro lado, ao enunciar o estado de emoção, um sujeito aproxima-se do outro, o qual pode, em alguma medida, reconhecer-se nas palavras lidas/ouvidas (enunciados), ainda que manifeste sentimentos outros derivados da sua experiência. Nesse viés, podemos compreender que, por exemplo, “o sofrimento do outro, que vivencio empaticamente, é por princípio diferente – e ademais no sentido mais importante e essencial – do sofrimento dele para si próprio e do meu sofrimento em mim” (BAKHTIN, 2010, p. 94).


Não se trata apenas de registrar fatos, mas, sim, de representar eventos com base no respeito ao outro, efetivando, assim, os atos responsivos, como sujeito que acolhe a experiência alheia, o que é indicativo da sua responsabilidade, na medida em que a congrega, de forma ética, toda uma experiência humana na e pela palavra, no e pelo enunciado vivo. Isso significa necessariamente compreender a palavra-outra como digna de entrar no meu horizonte e a minha atitude enquanto um acolhimento da palavra-outra como palavra-minha, em uma dialogia que orbita o universo que nos constitui a ambos. Desse modo, a palavra-outra torna-se palavra-minha-outra e palavra-minha em uma tensa luta dialógica (BAKHTIN, 2010, p. 379), que é uma experiência plenamente constitutiva e viva em que a linguagem e a palavra são as pontes que ligam o eu ao outro (VOLÓCHINOV, 2017).


Considerando os dois momentos dialogicamente discursivos de fala, a palavra-minha e a palavra-outra, temos que reconhecer que essa dialogia tensa, para Bakhtin (2010, p. 271), trata-se de um processo ativo no qual, “[...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o. [...] o ouvinte se torna falante”. E, quanto à dimensão responsável e responsiva, visto que cada fala gera uma resposta, mesmo que de forma silenciosa, assevera Bakhtin (2011) que cada palavra-minha suscita várias outras como respostas, consideradas sob vários ângulos, e que se transformam em palavras-outras-minhas ao trazerem, como enunciados de outros, toda sorte de elementos que vem a constituir a palavra-minha em um palco de disputas (VOLÓCHINOV, 2017) de classe, culturais, sociais etc. Não se trata de reprodução de diálogo, visto que a própria repetição já implica sentidos diferentes construídos por sentimentos, pensamentos e ações diferentes, em contextos distintos e em outra configuração espaciotemporal.


No contexto relacional que envolve a palavra-minha e a palavra-outra, é ainda interessante observar como funcionam situacionalmente os elementos da língua. Entre as muitas possibilidades, podemos ver, por exemplo, como a cadeia enunciativa e o enunciado são aspectualizados pelos verbos que constituem a manifestação discursiva, de modo a modificar ou a reiterar renovadamente os sentidos produzidos pelos sujeitos. Sobre o fenômeno do aspecto verbal, vários autores da linguística discorrem sobre as características temporais que definem o desenvolvimento das ações, a exemplo de Castilho (apud Orra, 2013, p. 31), segundo o qual “o aspecto verbal é a visão objetiva da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo e a ideia de duração ou desenvolvimento”. Já Travaglia (apud Orra, 2013, p. 33) “indica o espaço temporal ocupado pela situação em seu desenvolvimento, marcando sua duração”.


Em ambos os autores, a relação temporal está diretamente ligada à produção de sentidos por parte dos sujeitos nos atos discursivos em que estão implicadas as múltiplas formas de interação dialógica entre a palavra-minha e a palavra-outra, demarcando a relação entre o estado expresso pelo verbo e a ideia de duração, considerando a temporalidade interna, que liga o tempo do evento a outro ponto no tempo. Podemos perceber essas perspectivas sobre o aspecto verbal, com relação à palavra-minha e à palavra-outra, nos seguintes exemplos:


Exemplo A: "Eu estava em São Paulo indo buscar minha irmã para sairmos, estávamos animadas para conhecer aquele bar que havia acabado de inaugurar, mas quando chegamos lá, não deixaram que a gente entrasse, pois já estava com lotação máxima".


Exemplo B: "Maria disse que ia buscar sua irmã para saírem e conhecerem um bar recém inaugurado em São Paulo, elas estavam animadas, mas não puderam entrar no bar por ele estar com lotação máxima".


Ao observarmos de modo minimante analítico os verbos destacados, podemos observar, primeiramente, que, no primeiro exemplo, os verbos se encontram na primeira pessoa do singular e do plural, demonstrando o envolvimento direto do(s) sujeito(s) com o evento narrado. Enquanto isso, no segundo exemplo, os verbos estão na terceira pessoa do plural ou no infinitivo, quando se se refere ao bar, demonstrando um envolvimento indireto ao acontecimento, visto que se fala de outro sujeito. Essa característica permite identificar quem, no tipo de discurso formado por esses elementos, está falando em cada evento, dada a característica número-pessoal do verbo (mesmo que os sujeitos não sejam determinados nos textos). Em ambos os exemplos, é possível notar a prevalência do tempo passado dos verbos, havendo maior distinção com as locuções verbais “indo buscar” e “ia buscar”, já que uma demonstra a ação ocorrendo e outra indica a ação ocorrida.


A partir daí, pensando no circuito da palavra-minha e da palavra-outra, podemos observar a palavra-minha, no primeiro exemplo, como um típico caso de discurso direto (VOLÓCHINOV, 2017), no qual se encontram presentes materialidades linguísticas que denotam que é o eu quem se posiciona a respeito de um evento no qual esteve envolvido diretamente. Como uma experiência viva em um evento, todavia, essa palavra-minha, enquanto um enunciado do discurso direto, está inteiramente impregnada de palavras-outras e de presenças-outras, cujas marcas estão expressas linguisticamente, por exemplo, no uso sempre recorrente da primeira pessoa do plural ("saímos", "estávamos", "a gente" etc.). Essa palavra-minha é, pois, uma palavra-minha-outra ou palavra-outra-minha. É uma palavra inteiramente dialogizada.


No segundo exemplo, temos a palavra-outra, enquanto um enunciado do discurso indireto (VOLÓCHINOV, 2017), tornando-se palavra-minha ao ser trazida como uma contação de um evento a partir do horizonte alheio, narrativa que é apropriada e recontada sob o entendimento do eu que se enuncia. Nisso, conseguimos notar como uma colocação do verbo pode, como constituinte linguístico, alterar todo um sentido do enunciado, desde o posicionamento a partir do qual se fala, o que está ligado intimamente à perspectiva de um horizonte concretizada na interação dialógica entre as palavras de um e de outro, até o tempo no qual se fala e a posição a partir da qual se dá a representação do evento, através justamente do aspecto verbal, o que se relaciona diretamente com os tons emocionais-volitivos aí implicados.


Além da característica do aspecto verbal, podemos ainda presumir, por meio do que brevemente discutimos aqui, como um evento pode ser contado por diferentes sujeitos, marcar os seus distintos posicionamentos, indicar as formas emocionais-volitivas de interagir com o discurso alheio e com o próprio evento em que há a interação e a experiência e como isso imprescindivelmente muda os sentidos das coisas e refrata (VOLÓCHINOV, 2017) tudo o que aí pode estar envolvido, tanto pelos elementos da língua utilizados, como os verbos, como por outros componentes não necessariamente linguísticos que deixam as suas marcas materializadas na constituição linguística dos enunciados. Portanto, os processos de narração de histórias e de experiências e a recontextualização dos dizeres alheios não proporcionam uma mudança superficial ou apenas uma reprodução de algo já dado e acabado, mas a construção de uma unidade nova a partir dessa interação tensamente dialógica entre a palavra-minha e a palavra-outra, além de provocar modificações entonacionais dos sentidos de cada um dos enunciados e da representação global do evento.



Referências


BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010.


BAKHTIN, Mikhail. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.


BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato. Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza a partir da versão do inglês: Toward a Philosophy of the Act. Austin: University of Texas Press, 1993.


BRAIT, Beth. (org.) Bakhtin: conceitos-chave. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2010.


ORRA, Samira. Tempo, aspecto e modo verbais e o gênero textual carta do leitor: análise de tarefas do Celpe-Bras. São Paulo: USP, 2013.


VOLOCHINOV, Valentin. A construção da enunciação e outros ensaios. Tradução de João Wanderley Geraldi. São Carlos: Pedro & João Editores, 2013.


VOLOCHINOV, Valentin. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.

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